Após três ótimos filmes, um mediano e outro do qual prefiro nem comentar, Todo Mundo em Pânico está oficialmente de volta. Como fã da franquia — e de filmes de paródia em geral —, entrei na sala de cinema com um mix de curiosidade e nervosismo. Tantos anos depois, será que a fórmula ainda funcionaria ou já estaria ultrapassada — ou pior, ofensiva — demais? A resposta mais breve para essa pergunta fica clara já nos materiais promocionais do novo filme: se você se ofende fácil, Todo Mundo em Pânico não é para você.

A saga nunca teve medo de extrapolar limites, investindo em um humor ácido, controverso e, como alguns descreveriam, de mau gosto. Até eu, que sou uma mulher de riso fácil, confesso que já torci o nariz com várias cenas da franquia. Mas, apesar de alguns tropeços, fico extremamente aliviada em afirmar que o novo filme resgata o que há de melhor na saga.

Corre, garota, corre!

Já faz 26 anos desde que vimos Cindy (Anna Faris), Brenda (Regina Hall), Shorty (Marlon Wayans) e Ray (Shawn Wayans) pela primeira vez. Farris e Hall ficaram de fora do quinto filme, lançado em 2013, mas os Wayans, criadores da saga, deixaram de fazer parte da franquia muito antes. A versão resumida da história é que Shawn, Marlon e Keenen Ivory Wayans, diretor dos dois primeiros filmes, entraram em uma disputa salarial com os produtores Bob e Harvey Weinstein após Todo Mundo em Pânico 2, e a saga continuou sem eles. Dito isso, não estou exagerando quando falo que ver a reunião do quarteto original no novo filme foi como assistir aos Vingadores.

O longa usa como base a trama do filme Pânico de 2022. Aqui, Cindy tem duas filhas, Sara (uma sátira de Sam, personagem de Melissa Barrera em Pânico) e Waldinha (que parodia tanto a irmã de Sam, Tara, quanto Wandinha Addams, ambas interpretadas por Jenna Ortega). O problema é que Cindy e as filhas não possuem a melhor das relações, com o filme deixando claro a negligência da mãe. Vale mencionar que, desta vez, Cindy é uma mistura de Sydney Prescott e Laurie Strode (nos filmes mais recentes de Halloween).

Quando o atrapalhado Ghostface volta para atormentar Sara e Waldinha, Cindy reencontra Brenda, Shorty e Ray para desmascarar — mais uma vez — o assassino. O grupo conta com o apoio dos filhos de Brenda, Dei (Sydney Park) e Brad (Gregg Wayans), da namorada de Brad, Val (Ruby Snowber), e do namorado de Sara, Jack (Cameron Scott Roberts). Todos, claro, são paródias do núcleo jovem de Pânico 5.

Também temos a chance de reencontrar outros antigos personagens de Todo Mundo em Pânico, como Gail Hailstorm (Cheri Oteri), Doofy Gilmore (Dave Sheridan), o icônico “Mãozinha” (Chris Elliott) — que aqui satiriza Longlegs —, Greg Phillipe (Lochlyn Munro) e Bobby Prinze (Jon Abrahams). Os personagens não possuem muito tempo de tela e, sem dar spoilers, alguns deles sequer sobrevivem por muito tempo, mas mesmo assim é divertido revê-los. Devo dizer, porém, que Gail protagoniza uma das minhas cenas favoritas do filme, que envolve uma paródia de A Substância e uma participação mais do que especial de — agora sim, alerta de spoiler! — uma das Branquelas (tenho que admitir que não consegui reconhecer qual delas, mas o que importa é que aconteceu).

Pecadores, Terrifier, John Wick e muito, muito mais

Se sua parte favorita de Todo Mundo em Pânico é tentar adivinhar cada uma das obras parodiadas na franquia, aqui vai uma boa notícia: o novo filme é o que possui mais delas até agora. Entre as sátiras, menções e referências, temos títulos como Pecadores, Terrifier, Ma, Premonição, Sorria, Corrente do Mal, Corra, A Hora do Mal, M3GAN, Heart Eyes, John Wick, Candyman e, surpreendentemente, Guerreiras do K-Pop. O fenômeno da Netflix ganha destaque em uma cena bizarramente alucinante de Shorty, inteiramente animada e com direito até a uma paródia da música Golden.

E as referências não se limitam aos filmes: Todo Mundo em Pânico sempre trouxe pautas sociais, políticas ou que, simplesmente, causaram alvoroço na mídia. Aqui, os holofotes passam pelo movimento Black Lives Matter (aliás, há várias referências à violência policial nos EUA), pelo escândalo de P. Diddy, pela disputa presidencial entre Donald Trump e Hillary Clinton em 2016 e até mesmo pelos escandalosos arquivos do caso Jeffrey Epstein.

Nessa avalanche de sátiras, era de se esperar que o filme não conseguisse amarrar bem sua trama, com paródias jogadas aqui e ali, mas todas as referências têm ao menos um mínimo propósito. Isso não quer dizer, porém, que todas elas sejam igualmente boas…

Pesou o clima ou é impressão minha?

Se dividirmos o filme em duas metades, eu diria que a segunda é muito superior na forma como o humor é trabalhado. A abertura do filme — envolvendo uma participação de ninguém menos que Teyana Taylor — é excelente, jogando os padrões para o restante da trama lá em cima. O que veio a seguir, entretanto, foi bastante inconsistente.

Há uma cena muito incômoda envolvendo Ray, que entra em uma igreja (à la Pecadores) para testemunhar que não é mais gay. Isso foi um foco humorístico nos dois primeiros filmes, e é claro que não seria diferente aqui. Mas quando o personagem passou pelo menos um minuto fazendo uma série de gestos sugestivos com um microfone, não tive como deixar de sentir vergonha alheia — e não no bom sentido.

São momentos como esse, com o exagero extremo de certas piadas, que o filme me incomodou. E esses momentos estão mais presentes na primeira metade do filme, como comentei. Talvez tenha a ver com o fato de que a primeira metade tenha uma participação maior dos novos personagens, que, honestamente, são simplesmente entediantes. Todo o papel de Sara, por exemplo, gira em torno de ela ser uma viciada em remédios com mommy issues. Mas isso é repetido tantas e tantas (e tantas) vezes que, depois de um certo ponto, você não aguenta mais ver a cara dela na tela.

Felizmente, temos a segunda metade do filme para dar aos fãs o que eles realmente querem ver: o quarteto original em todo seu esplendor. Sem contar o terceiro ato com uma deliciosa reparação aos irmãos Wayans, que finalmente retornam para continuar a história da qual jamais deveriam ter saído.

No fim das contas, Todo Mundo em Pânico sempre foi sobre o exagero e a ousadia que ultrapassa limites. E, com piadas tão distintas, é claro que não dá para agradar todo mundo — e esse nem é o propósito da franquia. Embora não alcance a qualidade dos primórdios da saga, o sexto filme acerta em cheio ao resgatar o melhor dela até aqui: suas estrelas originais e uma interminável enxurrada de paródias. Aliás, fique até o final da sessão: tem cena pós-créditos!

Fonte original: IGN Brasil.