Tem uma ideia que parece óbvia só depois que alguém a executa: e se um jogo de dinossauros tratasse os dinossauros como animais? Não como monstros scriptados, não como obstáculos com padrão de movimento previsível, mas sim como predadores de verdade, com comportamento próprio, imprevisíveis, indiferentes à sua existência até o momento em que decidem que você é o almoço. É essa a proposta de The Lost Wild, e depois de acompanhar uma apresentação exclusiva de portas fechadas no Summer Game Fest, posso dizer que a ideia funciona melhor do que eu esperava.
Uma origem de 18 anos de espera
Antes do jogo em si, vale contar a história por trás dele, porque ela diz muito sobre o que está sendo construído. Nick Gregory, cofundador da Great Ape Games, era adolescente em 2008 quando começou a modelar dinossauros no próprio quarto com um sonho claro: fazer um jogo onde esses animais fossem tratados com a seriedade que merecem. Chegou a ter uma página inteira de projeto esboçada, mas o projeto ficou parado por quase uma década.
Quando voltou, foi como projeto paralelo, desenvolvido nos horários livres até tomar forma o suficiente para justificar um estúdio de verdade. A Great Ape Games nasceu assim, em Brighton, na Inglaterra, e foi a Annapurna Interactive que reconheceu o potencial e fechou a parceria de publicação. Faz sentido: a Annapurna tem um histórico sólido de apostar em jogos com identidade própria: Outer Wilds, What Remains of Edith Finch, Stray... e The Lost Wild se encaixa perfeitamente nessa linha.
Você não é uma heroína, você é vulnerável
The Lost Wild se passa em uma ilha misteriosa cercada de dinossauros. Você controla Saskia, uma repórter investigativa que acorda desorientada no local e precisa encontrar uma saída explorando instalações de pesquisa abandonadas no meio de uma floresta densa e hostil. A regra central do jogo é simples e transforma tudo: você não mata os dinossauros.
A progressão é construída inteiramente em torno de stealth, observação e uso inteligente do ambiente. Distrações, itens coletados, esconderijos... esse é o seu arsenal. Uma frase dita durante a apresentação ficou comigo: você não é um herói, você é algo muito mais vulnerável nesse jogo. É uma escolha de design específica e corajosa, especialmente em um mercado onde a tendência é sempre empoderar o jogador.
O que torna isso funcionar na prática é o comportamento dos dinossauros. Eles não são obstáculos com padrão fixo, agem como predadores com lógica própria, reagindo a cheiro, som e movimento de formas que variam a cada encontro. Durante a sessão que acompanhei, a própria pessoa jogando entrou em apuros repetidamente porque os dinossauros reagiram de formas inesperadas. Há uma mecânica visual que indica proximidade, um indicador que sinaliza quando o predador está sentindo seu cheiro ou ouvindo seus passos, mas isso não transforma a situação em algo confortável.
A herança de Alien: Isolation
O diretor do jogo é Gary Napper, que atuou como lead designer em Alien: Isolation. A influência é direta e declarada, e faz toda a diferença para entender o que The Lost Wild está tentando construir. A ideia é a mesma: um predador que pensa, que persiste, que não se comporta como um inimigo de videogame.
A floresta é densa, fechada, cheia de lugares que claramente foram evacuados às pressas. Instalações abandonadas, objetos deixados para trás, rastros de pessoas que saíram correndo e não voltaram. O visual está muito bem realizado, e a sensação de estar no lugar errado na hora errada permeia cada ambiente mostrado. É o tipo de atmosfera que não precisa de jump scares para funcionar.
The Lost Wild ainda não tem data específica de lançamento, apenas previsão para 2027, com versões confirmadas para PlayStation 5 e PC. O jogo foi revelado no State of Play da Sony e a apresentação exclusiva que acompanhamos reforçou que há um projeto sólido e com visão clara por trás do que está sendo construído. Se a execução final mantiver o que foi mostrado, The Lost Wild tem potencial para ser um dos jogos mais originais de 2027. E para quem cresceu querendo um jogo de dinossauros que levasse esses animais a sério, a espera de 18 anos pode ter valido.
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Fonte original: IGN Brasil.

