É curioso notar que Star Wars teve dois “recomeços” no cinema, mesmo que nunca tenha saído do imaginário dos espectadores e, muito menos, dos fãs da galáxia muito, muito distante. Depois de A Ameaça Fantasma lançar a trilogia prequel em 1999 e O Despertar da Força em 2017, a franquia continuou ganhando vida apenas no streaming da Disney. O Mandaloriano e Grogu é o primeiro longa em sete anos a chegar nas telonas, marcando a reentrada da franquia no que deveria ser algo estrondoso, igual aos seus predecessores, mas que não passa do rotineiro que já estamos acostumados das aventuras do caçador de recompensas e seu pequeno “yodinha” na série The Mandalorian.
O Mandaloriano e Grogu é uma nova aventura do caçador de recompensas Din Djarin (Pedro Pascal) e seu filho adotivo Grogu, da mesma espécie do Mestre Yoda. Aqui, os dois trabalham para a Nova República, fazendo uma série de missões para tentar aniquilar o Império da galáxia, enquanto também precisam lidar com outros lordes do crime.
Uma temporada inteira em 2 horas
Uma das grandes qualidades do filme é que não é preciso assistir às três temporadas de The Mandalorian, mas o ônus disso para quem assistiu é que o longa parece uma temporada inteira de episódios comprimidos em 2 horas de duração, quase como um longo especial que poderia ter ido direto para o streaming. Isso, no entanto, não quer dizer que é ruim, mas que não parece um “filme de Star Wars” como estamos acostumados, talvez justamente por esperarmos grandes batalhas ou histórias mais complexas. O Mandaloriano e Grogu parece mais com a animação de 2008 de The Clone Wars, que foi direto para a televisão, ainda mais que Rotta, o Hutt, está, pela segunda vez, dando as caras.
Por mais que a trama tenha boas sequências de lutas, Walkers caindo de um penhasco, muitos blasters e espécies inéditas, não há exatamente um vilão como o Império ou até os próprios Hutts ou outros caçadores de recompensa — eles simplesmente são ameaças e nada mais —, o que não deixa muito explícito o que nós, espectadores, deveríamos temer ou torcer. Por um lado, é bom que o longa não tenha muitas conexões com “coisas maiores” da galáxia, igual a, por exemplo, bater de frente com os remanescentes do Império, mas é justamente essa falta de um vilão de fato que atrapalha nosso alerta emocional quando Grogu e Mando enfrentam dificuldades — nós já sabemos que eles vão sobreviver. Até as reviravoltas parecem ter sido criadas para o final de algum episódio padrão de The Mandalorian.
Os Hutts como ninguém nunca viu
Em The Clone Wars e na série Clone Wars, que veio posteriormente, um pouco mais da extensa família do crime dos Hutts foi apresentada, então já estava bem acostumada com as lesmas gigantes. Vê-las em carne e osso (de certa forma) desde Jabba em 1986, no entanto, foi algo totalmente inesperado. Claro, já sabia que Rotta iria aparecer em sua magnitude, mas nada me preparou para a nojeira asquerosa dessa espécie. Tudo é repulsivo: como eles andam, correm, lutam, dormem e fazem…coisas de lesma. Os efeitos visuais são realmente algo à parte que só a Lucasfilm poderia fazer, o que realmente é um colírio para os olhos ao comparar com os recentes péssimos CGIs de outra franquia que a Disney tem em seu currículo: A Marvel.
Outro dos grandes trunfos do filme é a cinematografia, especialmente os cenários, como um planeta que curiosamente parece Chicago, onde Rotta está preso. Ironicamente, como dito anteriormente, ele é interpretado por Jeremy Allen White, ator de Carmy em outra série do Disney+, “O Urso”, que se passa na mesma cidade. Chicago já passa uma ideia meio cyberpunk e Gotham, então isso combinou muito bem com a versão que Star Wars imaginou. Até Allen White quase reprisa o mesmo papel de O Urso como o Hutt, que, em vez de ter mommy issues igual ao personagem da série de culinária, tem daddy issues por ter vergonha do pai.
Entre outros personagens secundários, não há muito para se esperar. Sigourney Weaver e Zeb Orrelios, personagem de Star Wars Rebels, fazem participações pontuais, o que, no caso de Zeb, é apenas um aceno para fãs da animação, enquanto para Weaver é a chance de marcar na cartela do bingo uma ficção científica depois de Alien e Avatar. Há um novo caçador de recompensas que lembra bastante Cad Bane, mas parece mais uma tentativa de emular o mercenário e o quanto ele era “misterioso e com um design incrível” do que efetivamente apresentar um pouco dele para ser explorado futuramente.
O futuro de Mando e Grogu?
A grande aventura cinematográfica da dupla não parece ter colocado expectativas para o futuro dela, o que é algo bom e ruim para todos os efeitos. Mando e Grogu não evoluíram em seu relacionamento de pai e filho, ou sequer o caçador de recompensas entrou para a Nova República ou retornou à Mandalore, o que deixa essa sensação de “filler” no filme. É uma aventura com começo, meio e fim, mas ela não encerra a história e nem deixa uma ponta de continuação definitiva. Agora, resta esperar a Disney decidir o que fazer tanto na televisão quanto no cinema.
O Mandaloriano e Grogu joga no seguro com um filme que parece um apanhado de episódios da série do Disney+. Com bastante cenas de ação e blasters por todos os lados, uma história morna e sem grandes perdas, o novo longa de Star Wars diz que a franquia está pronta para lançar novas histórias sob a direção de Dave Filoni, mesmo que tenha que apresentar mais do mesmo nesse recomeço.
Fonte original: IGN Brasil.
