Depois de muito tempo fora do assunto que o consagrou, Steven Spielberg voltou com tudo para a ufologia em Dia D, que estreia nos cinemas brasileiros no dia 11 de junho. E tudo mesmo, com direito a começo com um “chute” para acordar o espectador para a jornada que o espera.
Em Dia D, não há uma invasão iminente ou uma raça alienígena por trás da nova ordem mundial ou clichês do gênero assim. Pelo o contrário: há uma empolgante trama de espionagem que usa lendas urbanas (ou fatos, dependendo da sua crença) para tentar divulgar o que Fox Mulder já dizia: a verdade está lá fora.
A busca pelo conhecimento
Logo de cara conhecemos Daniel Keller (Josh O’Connor), que é a força motriz da trama por conta de suas interações com todo o resto do elenco. Sem spoilers por aqui, mas é importante falar de Noah Scanlon (Colin Firth), a força opositora da trama, bem próxima dos “homens de preto” descritos em diversos casos de ufologia por aí, mas não cômicos e completamente futuristas como em MIB.
Keller tem seus motivos para querer que toda a humanidade saiba o que ele tem em seus discos rígidos, mas a trama escrita por David Koepp faz questão de estabelecer que essa verdade não é algo simples. Essa visão está centralizada em Jane Blankenship (Eve Hewson), namorada de Keller que tem um grande passado religioso.
No outro lado da história, pelo menos nesse momento, conhecemos Margaret Fairchild (Emily Blunt) que de cara nos conquista com seu carisma — que só vai aumentando durante todo o filme. Algo que não apenas é natural, mas essencial para a trama funcionar. Afinal, Margaret era só uma jornalista de uma pequena emissora até a manhã que a conhecemos, quando ela recebe a visita de um curioso pássaro que serve de pontapé para sua jornada.
Junto com Jane, elas são as personagens que vão descobrindo a conspiração, cada uma à sua maneira nesse emaranhado que mistura espionagem com conceitos de ufologia. Os personagens principais são usados para levantar grandes questões ligadas à teologia, ao peso de ter informações que podem mudar o planeta e até mesmo sobre a falta de empatia no mundo de hoje. O roteiro questiona se é possível acreditar em vida fora do planeta e ainda continuar sendo religioso, por exemplo, embora essa resolução aconteça de maneira um pouco apressada. Além disso, o fardo do conhecimento é algo que persegue Keller desde o começo do filme até a resolução da história.
Spielberg ainda tem o jeito
Steven Spielberg não precisa provar nada para ninguém, claro. Mas vê-lo voltar às grandes sequências de ação, com perseguições criativas, escapes no último momento e, claro, aliens(!), é algo que aquece o coração de quem cresceu com os clássicos do diretor.
Além de uma grande perseguição de carro que termina numa cena digna de clássicos do diretor, Spielberg também mostra domínio de pequenos reflexos, expressões e movimentos que engrandecem cada cena, como no momento em que uma faca é utilizada para mostrar mais nuances, ou um diálogo que se passa em mais de um lugar ao mesmo tempo.
Com tantos filmes sobre vida fora da Terra em sua filmografia, fica claro a paixão de Spielberg pelo tema. Ainda assim, mesmo ele já tendo mostrado o lado carinhoso de figuras alienígenas antes, Dia D funciona quase como uma carta de amor à ufologia e a todos que acompanham esses fenômenos.
Não há uma referência clara aos trabalhos anteriores aqui. Em uma montagem com vários casos, eu imaginei que poderiam tratar de Contatos Imediatos como um dos “episódios anteriores” citados, mas não. Além disso, por mais que seu estilo esteja claro, Spielberg parece ter evitado planos que remetessem aos seus clássicos. Ou seja, não há uma cena que lembra ET, ou Contatos, ou qualquer outro filme anterior dele (sobre ETs ou não).
Talvez, além da criatividade, as únicas “assinaturas” sejam mesmo os diversos momentos de luzes na lente, os famosos “lens flare” que aparecem em muitos filmes dele. Assim como a mensagem por trás da história. Que, nesse caso, é bem escancarada sobre o que os ETs (e Spielberg) esperam da humanidade — que não é algo muito diferente do que nosso querido ET Bilu já nos contou na Record.
E, claro, na parte sonora temos a trilha de John Williams, o lendário compositor parceiro de carreira de Spielberg. No entanto, não há exatamente um tema que roube a atenção, ou que te faça querer sair da sala de cinema e escutá-lo novamente. É uma boa trilha sonora, competente, mas que prefere destacar o que acontece nas cenas ao invés de querer ser hit no streaming.
É incrível pensar que, mesmo após tantos anos e tantos clássicos com seres de outros mundos, Spielberg ainda consegue dar um novo tom para uma história que poderia facilmente ser um repeteco de ET, Contatos Imediatos de Terceiro Grau ou até de Guerra dos Mundos. Esses três filmes, juntos de Dia D, mostram a paixão de Spielberg pelo tema e mais ainda a competência que o diretor tem para fazer cinema.
Por mais que os personagens citados anteriormente sejam, no geral, bastante interessantes, existem outros que mostram o lado mais fraco do roteiro. Jackson (Wyatt Russell) começa como um alívio cômico da história, mas no fim só se mostra um cretino que não vai para lugar algum. O punhado de agentes, tendo como destaque Casper (Henry Lloyd-Hughes), parecem super determinados a terminar sua tarefa, até que desistem quase como se a história deles tivesse que acabar e ninguém tivesse encontrado uma maneira melhor de fazer isso.
Outro que não merece muito destaque, negativo ou positivo, é Hugo Wakefield (Colman Domingo). Ele aparece na trama como um pequeno mistério e ao longo da jornada de Kellner entendemos sua importância, mas o personagem fica mais tempo falando no telefone do que com outros personagens e, quando efetivamente passa a fazer parte da história, acaba sendo a parte que mais explicativa do filme.
Domingo é um ator muito carismático e a história perde ao utilizá-lo dessa forma, ainda que o filme dependesse dessa estrutura para revelar a importância de Kellner e Margaret. No entanto, o que vem depois é tão interessante que eu não sei direito se essa revelação era tão importante assim para a trama.
Spielberg ama ETs e fez esse filme todo para demonstrar isso. Não só para agradar quem também ama as criaturas de fora da Terra, mas para mostrar para quem não ama, ou não acredita, que é possível que eles existam e, se for o caso, está tudo bem. No fim, o filme acerta na maioria dos arquétipos que apresenta para contar uma história que poderia muito bem acontecer nos dias de hoje, principalmente pela parte bélica do pano de fundo em Dia D. Infelizmente a raça humana ainda precisa buscar muito conhecimento – e, pelo menos por enquanto, sozinha.
Fonte original: IGN Brasil.
