Como brasileiros, o café faz parte do nosso cotidiano e tem o poder de aproximar pessoas e aprofundar relações. A bebida está quase sempre presente nas conversas matinais, naquele café da tarde na casa de um amigo ou parente, e até mesmo após uma refeição compartilhada com alguém que amamos. E é isso o que vemos em Coffee Talk Tokyo.
Boas conversas e cheiro de café no ar
Desenvolvido pela Chorus Worldwide Games e Toge Productions, Coffee Talk Tokyo é o mais novo jogo da franquia Coffee Talk. Nele, o jogador assume o papel de dono de uma cafeteria localizada na cidade mais populosa do Japão e conversa com clientes que são tanto humanos quanto criaturas do folclore japonês, mais conhecidas como yokai. Por ser uma visual novel, o jogo não tem muitos momentos dramáticos com grandes reviravoltas. Dá para perceber que o foco está em ouvir as conversas daqueles que passam pelo estabelecimento e observar como relacionamentos são construídos. Cada novo capítulo inicia com uma página de jornal informando uma notícia em alta na região, que também será a base do que veremos em conversas mais à frente. Assim, a noite na cafeteria é logo preenchida pelas vozes daqueles que por ali estão passando e decidem sentar para beber algo. Primeira noite de serviço Logo na primeira noite, fui apresentada a Vin, uma pessoa que assumiu a posição de ajudante da cafeteria há alguns meses. Assim que o turno inicia, o primeiro cliente da noite aparece: Hendry, um personagem já conhecido pelos fãs da franquia (tem várias referências aos títulos anteriores), que veio de Seattle para ter uma reunião de trabalho com Jun, um dragão aquático artista bastante conhecido no Japão que está passando por uma fase difícil de sua vida com um lançamento de álbum flopado e um bloqueio de criatividade que está afetando negativamente sua carreira. Outros personagens também são introduzidos com o passar das noites, como a fantasma Ayame, a assistente pós-morte Fuku, o duende Ash e sua família, Emi e Erika, o kappa aposentado Kenji, entre tantos outros que vão compartilhando um pouco de sua vida com a pessoa que está atrás do balcão (nós). Assim, damos início a uma série de conversas que só são interrompidas para a preparação de bebidas, que é um dos únicos momentos em que botamos a “mão na massa” (ou melhor, no grão) dentro do jogo, mas que são de extrema importância para o desenrolar da história. Pedidos específicos ou vagos demais Não nego que a parte de preparar bebidas é fácil. Os pedidos são feitos e só temos que decidir se será quente ou gelado, e depois colocar três ingredientes específicos para o drink ficar pronto, podendo ser café, chá, achocolatado, entre tantas outras criações possíveis dentro das opções limitadas de ingredientes oferecidas. Cada bebida entregue corretamente faz com que a intimidade com aquele cliente específico aumente, e mais informações são liberadas a partir disso, como status na rede social Tomodachill 2.0, que lembra bastante o X (antigo Twitter) e faz parte de um dos aplicativos que o jogador terá incluso em um celular disponível no lado esquerdo inferior da tela. Nele, temos informações “publicadas” que podem ser úteis para conversas futuras e antecipam algum plot que está por vir, além de detalhes que não saberíamos em apenas uma noite de conversa na cafeteria. São três níveis de intimidade, e é muito divertido liberar aos poucos informações extras sobre os clientes. Ainda lembro da felicidade que senti quando consegui desbloquear o nível “amigos próximos” pela primeira vez com um personagem, que, neste caso, foi o Ash. Por isso é frustrante não conseguir entregar a bebida certa e, como consequência, atrapalhar o ritmo de construção de relacionamento que temos com os clientes. Mas isso acontece por um motivo específico: pedidos vagos demais. No jogo, tive que preparar as bebidas usando os pedidos como base. Não digo que isso é um problema, pois é divertido testar e descobrir novas receitas. No entanto, enquanto alguns são específicos demais, há outros que quase não dão informações e até deixam à imaginação do jogador, que pode se irritar quando recebe uma resposta de que não era aquilo que o cliente estava esperando. Além disso, há também os desenhos feitos com leite em lattes que, embora não sejam obrigatórios em alguns casos — e também não precisem ser perfeitos —, são complicados demais de fazer, o que pode demandar bastante tempo caso o jogador queira entregar algo minimamente decente. Quanto mais eu tentava arrumar, pior o meu desenho ficava. Há também a opção mais simples e rápida de apenas polvilhar pó por cima, como forma de decoração. É claro que esses detalhes não atrapalharam muito a minha experiência, que foi marcada mais pelo sentimento gratificante de entregar pedidos certos e desbloquear novas bebidas, que ficam salvas e disponíveis no Brewpab, outro “aplicativo” dentro do jogo que salva os pedidos certos já executados e que facilitou bastante a vida da barista aqui. Trilha sonora calma e relaxante, perfeita para noites de muita conversa Outro ponto super positivo é a trilha sonora, que podia ser controlada pelo próprio jogador ao acessar o Shuffld, um app semelhante ao Spotify e que apresenta playlists com diferentes músicas, além da opção de selecionar as favoritas. As músicas compostas por Andrew “AJ” Jeremy, que também esteve presente em títulos anteriores da franquia, são muito relaxantes e combinam perfeitamente com o clima da cafeteria. Após muitas conversas, é agradável poder decidir o que deixar tocando de fundo, considerando que poderíamos acabar achando irritante só escutar o mesmo instrumental — ou um título que não agrade muito — após passar horas lendo diálogos. Tópicos relevantes e coisas em comum É claro que não entrarei muito a fundo nas conversas que presenciei durante as minhas sessões de Coffee Talk Tokyo, para evitar possíveis spoilers e estragar a experiência de quem se interessar pelo título. Mas acho justo falar que, apesar de ser ambientado em um mundo fantasioso, o jogo aborda assuntos bastante relevantes para os dias atuais, tanto de modo direto quanto de forma sutil. Aquecimento global, inversão dos papéis de gênero tradicionalmente impostos pela sociedade, questões de parentalidade, crise de trabalho, entre outros. É interessante observar esses tópicos sendo discutidos, especialmente quando sabemos que o Japão, mesmo sendo uma grande potência mundial, enfrenta diversas crises e dificuldades atuais, como níveis extremos de calor ou o contínuo declínio da taxa de natalidade, que é acompanhado das exigências rigorosas do mercado de trabalho, que desmotivam jovens adultos a construírem família por receio de se tornarem pais ausentes ou precisarem abrir mão de uma carreira sólida diante da pressão social em um país de cultura corporativa rígida, onde tirar licença parental ainda é bastante criticado, especialmente quando se trata de homens. Os personagens também criam conexões compartilhando aquilo que têm em comum, como a perda, dor e a solidão. Ainda assim, há espaço para piadas e momentos leves, porque a vida não se resume apenas às dificuldades e aos momentos tristes, e a cafeteria é como um refúgio acolhedor que aquece o coração e esfria a cabeça daqueles que precisam desabafar quando a noite chega. O VeredictoCoffee Talk Tokyo é um jogo narrativo que se inspira em tópicos relevantes do mundo real para criar diálogos que alternam entre o divertido e o profundo, com aquela pausa necessária para apreciar uma bebida gostosa. Mesmo entre pedidos vagos e desenhos em latte que fazem o jogador duvidar de suas habilidades como barista, a visual novel garante horas de conversas com personalidades únicas, tudo rodeado por trilha sonora tranquila.
Fonte original: IGN Brasil.
