O maior escrete da história do futebol mundial. Elenco marcado pelo estilo “Jogo Bonito”, com 5 “camisas 10” na escalação e um time em busca de algo a mais. Uma verdadeira simbiose em campo, que mascarou momentaneamente as questões sociopolíticas enfrentadas pelo povo brasileiro. Simplesmente, a Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 1970.
Demorou mais de 50 anos para alguém fazer uma série dramática retratando esse feito. Essa responsabilidade ficou com a Netflix e a 02 Filmes, e posso adiantar que fizeram um ótimo trabalho em Brasil 70 - A Saga do Tri.
A série conta com 5 episódios que relatam o caminho para a Copa do Mundo de 70 e todos os jogos do Brasil na competição. A estreia aconteceu em 29 de maio e você já pode maratonar na Netflix.
Representação fidedigna de uma partida de futebol
Tecnicamente, a série tem diversas qualidades, tanto pelo ótimo trabalho da direção de arte com a caracterização dos personagens e ambientação nos anos 70, quanto pelo roteiro intrigante que prende o telespectador. Contudo, é exatamente quando a seleção canarinho entra em campo que o trabalho de Pedro e Paulo Morelli atinge um nível excepcional e merece aplausos.
Historicamente, retratar visualmente uma partida de futebol é algo muito complexo. Muitas vezes não atingindo as expectativas, seja pela falta de emoção na tela ou simplesmente pelas dificuldades técnicas de filmagem. Não ironicamente, a maioria das produções de esporte são motivo de chacota na história da indústria cinematográfica.
Ao olharmos para Ted Lasso, que recentemente foi a produção mais bem-sucedida em abordar o tema “futebol”, a série conta com poucos momentos futebolísticos e, quando tem, são tecnicamente fracos. O que, porventura, é totalmente o oposto do que acontece em Brasil 70 - A Saga do Tri.
Ao longo dos cinco episódios, acompanhamos algumas pílulas das eliminatórias, mas as grandes cenas em campo iniciam com a Copa do Mundo. Vale destacar que México 70 foi a primeira Copa a ser transmitida em cores via satélite para o mundo. E, se não bastasse esse fato histórico, a seleção brasileira daquele ano é considerada o melhor time da história. Portanto, boa parte dos fãs conhece os gols e lances daqueles jogos de cor e salteado — aumentando ainda mais a responsabilidade e dificuldade desta reprodução.
Afirmo com todas as letras que Brasil 70 tem a melhor reprodução cinematográfica de um jogo de futebol. O estudo, cuidado e ensaio para retratar esses momentos ficam nítidos para o espectador, que se apaixona pela produção a cada episódio.
O trabalho técnico de movimentação das câmeras, o trabalho sonoro e a ambientação do estádio abrilhantam ainda mais as montagens das pelejas, que buscam a representação 1:1 de cada lance.
Todo esse trabalho das equipes de direção, arte e pós-produção marca a qualidade absurda da série e levanta o sarrafo das produções que exploram o futebol para um nível nunca antes visto.
Caracterização do elenco
Nesse tópico, é impossível não ressaltar as semelhanças do ator Lucas Agrícola e Pelé. Em certos momentos, é natural confundir se é intérprete ou uma imagem de arquivo do Rei. Spoiler: é sempre Lucas.
A caracterização dos personagens é um dos grandes destaques da série. Não foi apenas uma questão de casting, mas sim um ótimo trabalho de maquiagem e figurinos. A direção de arte rouba a cena novamente.
A ambientação criada entre os anos de 1966 e 1970 é perfeita. A escolha dos figurinos, móveis, cenários e a reconstrução gráfica dos estádios nos transportam diretamente para o passado.
Outro ponto importante é o cuidado em gravar diversas cenas no México. Aumentando ainda mais a retratação fidedigna de México 70 com as cenas de cooper nas ruas, as conversas na praça entre Saldanha e Zagallo e outros momentos.
Uma visão humana da figura de Pelé
Ao se retratar uma figura tão famosa e icônica como Pelé, é muito difícil não cair numa caricatura ou até mesmo numa espécie de divinização do personagem. Aqui, a produção acertou demais em mostrar um Pelé para além do Rei do Futebol — as inseguranças, dúvidas, mágoas e, principalmente, a omissão perante a ditadura.
Isso não significa que Pelé é retratado como uma pessoa fraca ou ruim; muito pelo contrário, ele é retratado como um ser humano — e somos falhos, muito mais do que gostaríamos.
É importante exaltar a coragem dos roteiristas e da produção em trazer essa visão mais real e menos heroica do ídolo. Ainda assim, Pelé é o grande Rei do Futebol e é valorizado na medida certa, com todas as honras e glórias necessárias, todavia com as críticas também.
Lucas Agrícola assumiu a coroa do rei e fez um bom trabalho de estreia. Com certeza, novas oportunidades aparecerão para o jovem ator nos próximos anos.
Não é à toa que Rodrigo Santoro é um dos maiores atores do Brasil
É fato que sou fã, mas tiro o meu chapéu para Rodrigo Santoro. Uma atuação estrondosa e que se sobressai por muito em relação aos demais atores da série na maioria dos momentos.
A retratação de uma figura tão histórica e relevante como João Saldanha não é um trabalho simples por si só, mas em Brasil 70 o personagem se eleva ainda mais como o fio condutor de toda a história — um verdadeiro narrador do que está na tela e, especialmente, do que não é palpável e visto.
A escolha de transformar João nesta cola que interliga todos os núcleos é extremamente acertada. Aqui se destaca também Ravel Andrade, como Tostão, entregando a maior carga dramática entre todos os jogadores e adicionando mais um ótimo trabalho em sua carreira.
A sensação que fica é que eu poderia assistir a um spin-off com a vida de João Saldanha só para continuar assistindo a essa incrível interpretação de Rodrigo Santoro.
A ditadura está presente em todas as cenas
Qualquer pessoa que comente a Copa de 70 sem apontar o terrível período sociopolítico do Brasil está cometendo um grave erro. A produção da Netflix aborda o assunto de forma sutil, mas sempre presente nas cenas. É visível a sensação de opressão provocada pelo exército.
Na maioria das cenas, vemos a presença de homens armados e fardados fazendo a “proteção” da seleção. Com isso, sentimos a opressão aos jornalistas e a pressão à CBD, que estava com a corda no pescoço para ganhar a copa.
São muito bem abordadas as interferências do presidente nas escolhas da seleção e a repressão que acontecia no Brasil com os opositores políticos, aqui representados por João Saldanha e sua família. Ainda destaco a ingenuidade e omissão de Pelé perante a população brasileira na época, contudo, justificada também pelo medo e pelo racismo velado dos políticos e golpistas, que mancharam a imagem do Brasil.
Quando a ficção se intromete na história
Um grande problema da maioria das “cinebiografias” e adaptações de histórias reais é quando começam a alterar a história e criam artifícios ficcionais para incrementar a narrativa ou representar algum núcleo. Isso acontece em Brasil 70 com o casal responsável por representar a torcida brasileira.
Um exemplo recente, também na Netflix, foi a série “Senna”, em que certos personagens não existiam na vida real, como o caso da jornalista “Laura Harrison”, responsável por representar a relação de Ayrton com a imprensa. No entanto, o excesso de tempo de tela e interferência na história provocam um incômodo gigantesco ao telespectador.
Na série que acompanha a Seleção Brasileira, Rosa e Léo viajam ao México para acompanhar a equipe ao longo dos jogos. Não é um problema de atuação, mas de roteiro. Quebra o ritmo e não acrescenta em nada à história. Agora, olhando de forma positiva, são personagens que não interferem nos fatos — diferente de Senna.
Em contrapartida, o personagem de Marcelo Adnet faz parte de outro caso. Na Copa de 70, a transmissão aconteceu de forma conjunta nas televisões brasileiras. Portanto, aconteceu um revezamento entre comentaristas e narradores nas partidas. A decisão da série foi criar um narrador fictício que representasse todos os narradores para acompanhar João Saldanha nas partidas. Assim nasceu Eusébio Teixeira, muito bem interpretado pelo ator e comediante. O mais importante de tudo: ele não interfere na história.
Brasil 70 - A Saga do Tri resgata o clima de Copa do Mundo e provoca a sensação mais pura ao torcedor, que apenas uma criança de 10 anos pode experienciar com 100% do seu tempo disponível e a magia da infância. Tecnicamente, a série atinge nível de excelência e concretiza a melhor representação audiovisual de uma partida de futebol.
Fonte original: IGN Brasil.
