Antes de virar um filme da A24, Backrooms surgiu na internet a partir de uma simples foto publicada no 4Chan. Quase sete anos depois da publicação dela e inúmeras histórias e informações adicionadas por internautas, esse conceito chega aos cinemas pelas mãos de Kane Parsons em seu primeiro longa-metragem da carreira. Com apenas 20 anos de idade, ele carrega um entendimento muito palpável sobre a história e como fazer um tipo de terror minimalista e analógico, o que felizmente ofusca as eventuais decisões questionáveis do roteiro.

Bem-vindo ao Backrooms

Antes de dirigir seu primeiro longa-metragem, Parsons já sabia muito sobre Backrooms, sendo considerado um dos precursores dessa creepypasta da internet. Aspirante a cineasta, há quatro anos ele vem criando esse universo em seu YouTube, que tem 22 episódios da série até o momento. Desse modo, sua versão de Backrooms no novo filme da A24 é diretamente inspirada e ligada à série do YouTube em vez da gigantesca lore que a própria internet criou.

Assim, é muito perceptível que Parsons gosta e cuida dessa história como se fosse um filho. O filme é bem dirigido, principalmente nas cenas analógicas, quando o foco é em primeira pessoa gravada por uma câmera dos anos 1990. É exatamente nessas cenas que a tensão e o medo dos Backrooms residem, já que a câmera tira todo o poder de percepção ampla dos espectadores — a mesma dinâmica que o diretor usou no primeiro vídeo de Backrooms em 2022 e que o deixou tão famoso.

O longa utiliza as já tão famosas músicas ligadas aos Backrooms da internet no geral, como “Six Forty Seven”, de Instupendo, usada no trailer, algo bem “fanservice” e que não poderia faltar. Ao mesmo tempo, o próprio diretor também é o responsável pela trilha, visto que ele mesmo a compôs para a série no YouTube. Assim, ele tem uma ideia bem equilibrada do que colocar e não colocar no filme para agradar o seu público mais fiel e aquele que o desconhece, ainda mais quando eventuais referências à história que ele criou nos vídeos são inseridas cuidadosamente.

No entanto, o filme de Parsons não se propõe a ser algo expositivo igual à série de vídeos no YouTube. Em vez disso, a trama foca mais em um lado mais inédito: o psicológico — e é aí que ela se perde um pouco.

As repetições da nossa vida

Assim como a própria infinidade de salas de Backrooms, Parsons quer muito nos dizer para olharmos para as repetições de nossas vidas. Cenas de condomínios no subúrbio de uma cidade americana, prédios, vagas de estacionamento e rodovias sugerem que nós estamos numa espécie de rotina, e acho que isso combina muito bem com o que vemos nas redes sociais e a rolagem infinita de conteúdos no feed. Se não pararmos, podemos ficar presos nos vídeos — ou nos Backrooms.

No entanto, essa interpretação de Parsons acaba sendo um tanto (ironicamente) repetida diversas vezes ao longo da trama, principalmente com Clark (Chiwetel Ejiofor), que, como citado anteriormente, é um arquiteto fracassado que não consegue superar o divórcio e, mesmo com terapia, falha em reconhecer seus erros.

Backrooms já é uma metáfora para o psicológico do protagonista, mas isso é exacerbado quando vemos a Entidade (uma criatura desse lugar) sendo a representação “em carne e osso” do estado mental de Clark, mesmo que ela não dê nenhum medo. Digo isso porque a Entidade não é algo novo nesse universo. De fato, ela apareceu no primeiro vídeo da série, em que ela é apenas um emaranhado de fios, algo nada humano, mas que, por conta de ser bípede e parecer um corpo, dá essa estranheza icônica dos Backrooms: algo familiar, mas estranho. Em vez disso, nos é apresentada uma versão “pirata” dela, e o medo e desconforto acabam sendo relegados perante a história contada até então. Talvez tivesse sido melhor ficar com a versão dos vídeos.

Kane Parsons sabe o que faz, onde quer chegar e a história que gostaria de explorar, mas é bem no final que a conclusão se perde e vira algo muito escrachado, quase como se ele não acreditasse que os espectadores entendessem do que se trata sua visão de Backrooms. Felizmente, isso não ofusca o ineditismo do filme e todo seu conceito, provando que ele é alguém para ficar de olho nos próximos anos. Eu, particularmente, vou continuar adorando assistir a seus projetos.

Fonte original: IGN Brasil.