“Meu nome é Bond… James Bond.” Uma frase que atravessa gerações e mídias e se tornou símbolo de um dos maiores espiões da história do entretenimento. 14 anos se passaram desde o lançamento do último jogo do 007 (007 Legends) e sempre foi um desafio trazer o espião para os games. Mas a IO Interactive, desenvolvedora de Hitman: World of Assassination, fez dessa provação uma obra ótima que segue a cartilha dos jogos de ação em uma jornada única que faz você realmente se sentir como o 007.
Um agente novato para um novo começo
Diferente do que vimos nos filmes estrelados por Daniel Craig, First Light traz um James Bond novato, impulsivo e rebelde. Ter um personagem recruta traz identificação do jogador com as dificuldades do novo 007 e faz com que a curva de aprendizado de ambos se conecte ao longo do jogo. Apesar de um começo morno que passa pela Islândia e já demonstra os belos visuais do game, um envolvimento repentino de Bond com o MI6, serviço de inteligência britânico, até o treinamento dele no programa 00, o game exala uma grande influência cinematográfica e, em certos momentos, faz você se sentir na pele do agente, o que leva ao grande acerto em um dos pontos mais positivos da obra: a imersão.
A história demora muito para engatar e, quando engata, não é nada surpreendente, mas, ainda assim, consegue ser uma boa narrativa repleta de explosões, grandes sequências de ação e bons vilões, porém peca em não aprofundar melhor seus personagens. Além de Bond, Q volta, como de praxe, sendo o responsável pelos gadgets ultratecnológicos do espião. Mas temos Moneypenny, a garota da cadeira, que fornece todas as informações e briefings de missões para 007; Isola, uma bela espiã de outra nação que acompanha Bond em certas partes do jogo, e mais. Esses personagens são bons, no entanto, gostaria de ter visto mais interações de Bond com eles ou uma maior exploração do caminho deles até ali.
Mesmo que não seja uma narrativa brilhante, o jogo usa alegorias e críticas atuais sobre inteligências artificiais e como elas podem manipular o que sabemos em diversas camadas da sociedade e o poderio militar que podem ter. Além de uma crítica direta ao poder que bilionários exercem na sociedade. No fim, foi uma narrativa que gostei de acompanhar e que cumpre seu papel, deixando muito espaço para a gameplay brilhar. Os vilões podem não ser os mais marcantes, como Le Chiffre (007: Casino Royale) ou Alec Trevelyan (007: GoldenEye), mas fazem seu papel em movimentar a narrativa e em protagonizar boas batalhas de chefe.
Infelizmente, de volta ao tópico de personagens desperdiçados, o jogo traz um grande elenco que inclui estrelas como Lenny Kravitz, que aparece, faz uma graça e some pelo resto do jogo. Diversas figuras poderiam ser melhor aproveitadas para transformar essa trama em uma história emocionante e memorável, mas o jogo não eleva o patamar a lugar algum.
Uma experiência imersiva de ser o 007
Embora a narrativa não seja o grande destaque, 007 First Light brilha com uma jogabilidade imersiva que faz você se sentir o verdadeiro James Bond. Seja nas sessões de treinamento durante o longo tutorial, nas primeiras missões ou até na reta final, quando você e o 007 estão muito mais experientes em combate, o jogo brilha muito na imersão e em transmitir o que é ser um dos espiões mais famosos do entretenimento. Se um jogo acerta na jogabilidade, diversão e na sua imersão, ele acertou muito em ser um videogame.
Infiltrar-se em um local é extremamente divertido e tem até certo desafio herdado da franquia Hitman — nesses momentos a IO colocou toda a sua expertise à prova. Apesar de ser um jogo linear, você pode chegar de diferentes formas a um objetivo. Vou usar como exemplo a missão da Eslováquia, porque ela já foi exibida para o público, assim evito spoilers maiores.
Nessa missão, temos que invadir um hotel de luxo em que está sendo realizado um grande torneio de xadrez. Não temos autorização para entrar no local, mas temos diversas oportunidades e maneiras. Eu podia enganar os guardas na entrada, talvez roubar um convite ou coisa do tipo, mas, na lateral da entrada, tinha um jardim restrito para funcionários e com dois guardas. Eu abri o registro para que os sprinklers começassem a jogar água e tirassem um dos guardas de posição, e usei o gadget de dardo nauseante para que o outro também saísse do local e eu pudesse escalar uma sacada que me levava para dentro do hotel.
Essa gama de possibilidades faz com que você tenha vontade de rejogar as sessões do jogo e se desafie a todo momento. Também é possível usar disfarces, como na franquia Hitman, mas achei a mecânica pouco aproveitada, porque foram poucas as oportunidades que tive de usá-la ao longo das 20 horas de gameplay que tive.
Toda essa experiência muito imersiva de ser o James Bond passa também por um ótimo sistema de stealth que utiliza algumas mecânicas que me lembraram muito Marvel’s Spider-Man, da Insomniac Games, e também Watch Dogs, da Ubisoft. Os gadgets ultratecnológicos de Q entraram em ação toda vez que tive que passar despercebido em algum local do game, seja a ferramenta de hackear com o relógio Q, uma câmera de onda de choque que derruba inimigos, uma mina de atordoamento, ou os já mencionados dardos nauseantes. A gama de gadgets funciona muito bem e é uma pena que o limite era apenas de quatro ferramentas e eu não pude levar todas para o campo.
Bond também conta com uma barra de adrenalina, que é gasta ao atrair inimigos ou blefar para eles e que também serve para os tiroteios. Todos esses elementos compõem um ótimo sistema de stealth, cujo único erro é a inteligência artificial não muito apurada. Qualquer blefe funciona e ninguém questiona Bond após isso, o que é um pouco decepcionante, mas também mostra que o 007 é o espião supremo.
A cartilha dos jogos de ação
E, aproveitando que estamos falando de tiroteios, Bond não é um espião tão sorrateiro como o Big Boss ou Sam Fischer, então socos e tiros se tornam muito importantes durante as missões, principalmente com uma versão mais imprudente do personagem.
Se no stealth é possível sentir a influência de outros jogos de ação, durante os tiroteios e trocas de soco você sente isso ainda mais. A IO Interactive chamou Adam Vincent para compor o time de desenvolvimento e ele cuidou da parte das animações de combate de 007 First Light. O nome pode não ser tão conhecido, mas Vincent foi o designer líder de combate da série Batman: Arkham, e mais uma vez ele fez um excelente trabalho.
Os abates furtivos, o sistema de ataque, contra-ataque e agarrões transpiram o DNA da franquia Batman: Arkham, e isso é bom. Nem sempre trocar o stealth dá certo, então o jogo logo coloca você em uma luta com diversos guardas, o que pode ser bastante desafiador, mas as lutas são muito eletrizantes e é sempre satisfatório vencer um confronto apenas no soco contra cinco ou mais inimigos, mesmo que seja bem difícil de fazer.
Quando seu inimigo não está a fim de trocar socos e ele quer matar você a qualquer custo, o uso de armas é necessário. 007 First Light não deixa o jogador muito livre para atirar quando quer, mas, se o inimigo tem a intenção de matar, o jogo entra no estado “Licença para Matar” e podemos atirar o quanto quisermos. No stealth, temos essência de Watch Dogs e Marvel’s Spider-Man, no combate corpo a corpo, de Batman: Arkham, e nos tiroteios, a coisa é o mais puro suco de Uncharted — a influência do jogo da Naughty Dog se estende até mesmo para os colecionáveis, que muitas vezes estão bem escondidos de forma que até Nathan Drake passaria batido.
Infelizmente, aqui a inteligência artificial dos inimigos também decepciona. Em algumas situações, é muito fácil empilhar corpos porque os inimigos insistem em ir pela mesma porta sem cobertura alguma, que você já matou quatro rivais, o que torna o combate menos desafiador e, logo, menos recompensador.
Aqui a cartilha dos jogos de ação e tiro em terceira pessoa é colocada à prova. Começou um tiroteio: pegue cobertura, atire, corra para pegar uma arma porque as munições acabam rápido e você constantemente estará pegando a arma do chão; jogue uma arma descarregada na cara do inimigo e parte para o soco, volte a atirar. Nesse ciclo eletrizante, as sessões de ação de 007 First Light brilham muito e tornam o jogo muito divertido, sem se tornar repetitivas graças aos gadgets e variedades de cenário, mas também por um ponto meio decepcionante, porque elas não são tão frequentes; você passa mais tempo trocando socos do que dando tiros.
E o Simulador Tático adiciona mais para esse núcleo do game, possibilitando que você replique situações de combate em uma série de desafios que lembram um pouco as missões RV de Metal Gear Solid.
Licença para acelerar
Se estamos falando de James Bond, precisamos falar de carros também. Os veículos fazem parte da gameplay e protagonizam momentos eletrizantes. Apesar da direção não ser muito primorosa, ela não chega a ser ruim, mas, às vezes, os carros não passam a real sensação de velocidade que algumas perseguições precisavam. Ainda assim, é um adicional divertido para a jogabilidade.
Ainda mais na sessão final, em que controlamos um verdadeiro carro do James Bond, quase um Batmóvel — uma pena que seja somente no final e dure tão pouco.
“Meu nome é Bond… James Bond”
E, no meio desse fluxo de tiroteios, socos, hacking, stealth, e uma boa narrativa, vemos o surgimento de uma nova versão do James Bond, digna de todas as características que tornaram o personagem um ícone atemporal. Seja por seu lado mulherengo ou heroico, 007 First Light traz uma das melhores versões do personagem no que, possivelmente, pode ser o melhor jogo do personagem já feito.
Obviamente, First Light não tem ou terá o impacto cultural de 007 GoldenEye do Nintendo 64, mas pode disputar posição com o clássico FPS por contar com uma qualidade muito alta em diversos aspectos que compõem o game.
Mesmo que não seja um primor técnico por sofrer com alguns problemas de texturas que carregam muito em cima da hora, ou algumas que sequer carregam e ficam com aquele aspecto de 140p, a IO Interactive faz um ótimo trabalho com o jogo, que roda a 60fps em um PS5 Pro, plataforma em que joguei o game, e também não apresentou nenhum bug que tornou minha experiência frustrante. Os gráficos são belos, a música é emblemática, como toda obra de 007 pede, e a jogabilidade é brilhante, mesmo sem inovar.
Um sentimento nostálgico dos jogos da sétima geração de consoles permeia 007 First Light e mostra que esses jogos de tiro à la Uncharted e Gears of War, ou com um combate parecido com Batman: Arkham, ainda podem divertir e precisam voltar mais vezes. Ainda bem que maio trouxe esse jogo e LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight para lembrarmos dessa sensação.
007 First Light tem aquela sensação de ser um jogo de ação da sétima geração de consoles por conta de características que pega emprestado de outros jogos daquela época — e até mesmo alguns mais atuais — para criar uma experiência imersiva, divertida e eletrizante que estava um tanto quanto sumida dos videogames.
Fonte original: IGN Brasil.
