Não posso negar que Toy Story 4 foi uma decepção para mim. Apesar de achar o filme divertido, aquele ciclo de Woody deixando seus companheiros é definitivamente decepcionante. Mas, após alguns anos, passei a entender essa mudança de fase e o que aquilo simbolizava. Porém, quando Toy Story 5 foi anunciado, ainda mais com essa temática de brinquedos contra tecnologia, além de achar o filme desnecessário, pensei que a mensagem também estava ultrapassada — ainda bem que eu estava errado e pude me divertir e derramar muitas lágrimas após ver o quinto filme da franquia. Toy Story 5 mostra que a sequência da franquia é, sim, necessária e ainda atual, por mais que a mensagem pareça defasada no começo. Jessie nos holofotes Agora, com Woody distante, outra vaqueira toma os holofotes para si como xerife do grupo. Jessie, que sempre brilhou desde que entrou no elenco de personagens em Toy Story 2, é a principal protagonista do filme e rege muito bem o novo espetáculo. Ainda divertida, mas também séria e incisiva no confronto com Lilypad, a tablet que se torna a vilã do filme, Jessie se mostra uma protagonista tão boa, ou até melhor que Woody em Toy Story 5. Mesmo após deixar seus amigos, Woody é acionado para ajudá-los com Lilypad, e o caubói não está em seu auge agora, um pouco calvo e com uma pancinha de avô. Ainda assim, ele tem uma participação igualmente divertida e nostálgica por evocar conflitos clássicos com Buzz Lightyear que remetem diretamente ao primeiro filme da franquia e que os próprios brinquedos destacam falando que eles estão brigando como nos velhos tempos. A presença de Buzz também traz sentimentos nostálgicos, não pelo Buzz de Bonnie, mas sim pelo exército Lightyear, que funciona no modo padrão do personagem e se comporta como soldados reais, gerando momentos bem engraçados. Enquanto o astronauta do Comando Estelar de Bonnie ocupa um papel mais coadjuvante ao lado de Woody, mas serve como um bom par romântico para Jessie com seu jeito desajeitado. Tema parecia atrasado até assistir Falando na Bonnie, finalmente a garota tem um destaque maior do que ser dona dos brinquedos. O filme gira em torno daquela fase pré-adolescente em que você ainda tem apego às coisas da sua infância, mas quer começar a fazer atividades com seus amigos, ao mesmo tempo que fazer amizades não é tão fácil quanto era quando você era criança. Diante dessa dificuldade em fazer amigos e frente a uma barreira tecnológica criada por dispositivos com telas, Bonnie se vê isolada no mundo dela e de seus brinquedos. Para impedir que a garota fique sozinha, os pais dela compram uma Lilypad, um tablet educativo com jogos e atividades online que “facilitam” a criação de amizades. Desde a divulgação do filme, senti que a mensagem era antiquada; afinal, celulares e tablets estão aí há muito tempo. Porém, depois de assistir, vi que crianças são crianças, independentemente do momento que vivemos, e essa é uma mensagem que precisa ser reforçada. Toy Story 5 mostra como o uso excessivo de telas corrompe uma das fases mais belas da vida, além de minar possíveis laços que seriam formados, caso as crianças não estivessem vidradas em telas. Logo no primeiro dia em que Bonnie ganha a Lilypad, ela passa a esquecer os brinquedos dela e celebra que realmente achou novas “amigas” graças às ferramentas sociais tecnológicas do tablet. Mas nenhum vínculo ali era real e logo isso vira bullying e mostra o risco da exposição de crianças a esses ambientes. Os conflitos de Bonnie com essa busca por novas amizades e o enfrentamento dos brinquedos contra as telas ainda são muito atuais e levantam dilemas morais e éticos que falam, ainda que brevemente, sobre inteligência artificial generativa. A única forma que Bonnie quebra essa barreira das amizades e constrói um vínculo real é por meio de Jessie e da união com a Lilypad e, claro, de brincadeiras clássicas com Blaze, nova personagem da franquia que se torna grande amiga de Bonnie e mora na mesma casa da antiga dona de Jessie. Toy Story sempre será necessário Retornar às raízes de Jessie para um momento até mesmo anterior a Toy Story 2 aprofunda ainda mais a personagem e se mostra o grande foco emocional do filme. Claro que os conflitos internos de Bonnie e sua busca por amizades também emocionam, mas foi nos momentos de Jessie e Emily e nesse retorno ao passado que eu chorei mais. Toy Story 5 ainda passa a mesma mensagem de companheirismo e fala muito sobre vínculos, ao mesmo tempo que critica o uso demasiado de tecnologia e telas em uma fase da vida em que sua maior preocupação é se divertir. Mesmo que vilanize a Lilypad, no fim, o filme deixa bem claro que a tecnologia em momento algum é uma inimiga, mas sim uma aliada que fortalece e permite o vínculo de Blaze e Bonnie, que termina em brincadeira — mas o uso deve ser feito com responsabilidade, claro. Quando o equilíbrio entre brinquedos e tecnologia é encontrado, o filme mostra o lado mais belo de uma criança: a imaginação. As cenas da imaginação de Bonnie e Blaze são incríveis e um espetáculo visual repleto de cores vivas. Além disso, há uma trama hilária e até mesmo romântica com Buzz e Jessie em destaque. Ao dar maior protagonismo para Bonnie e Jessie, o filme mostra faces inéditas de personagens já habituais e acrescenta mais emoções a isso. Como dito anteriormente, Toy Story é sobre companheirismo e vínculos, mas sempre nas entrelinhas o filme fala sobre as fases da vida e como é importante continuar e seguir em frente — vimos isso com a passagem dos brinquedos de Andy para Bonnie. Agora, o filme mostra que fases passam e marcas ficam. Brinquedos não são apenas brinquedos, mas sim extensões de uma criança, e Jessie mostra muito bem isso ao vermos novamente sua relação com Emily, sua primeira dona, ser abordada novamente na trama. Se você pensa que Toy Story deveria ter parado após o terceiro filme, assista ao quinto e repense isso, porque essa franquia sempre será necessária para adultos e crianças. As mensagens são atemporais e os brinquedos têm muito a ensinar, e sempre existirá uma nova história. A Pixar tem sido questionada nos últimos anos, mas eles sempre mostram que sabem o que estão fazendo e surpreendem com suas reflexivas mensagens dos filmes ou pelo espetáculo de animação que sempre entregam. O VeredictoToy Story 5 mostra que não é nada desnecessário e que está no tempo certo, mesmo que a mensagem pareça atrasada de início. Dar os holofotes a Jessie e Bonnie é a melhor decisão do filme e permite que ele seja ainda mais engraçado e emocionante, e explora faces de personagens já habituais da franquia. Além disso, o longa mantém seu espetáculo visual e de animação com o preceito atemporal de “Amigo estou aqui”.

Fonte original: IGN Brasil.